“Onda” - Exposição individual do artista polonês Pawel Kwiatkowski

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SERVIÇO:

Visitação de 2ª a 6ª feira, das 9h00 às 12h00 e das 13h00 às 18h00
Entrada Franca

 

Notas sobre o homem na multidão

As relações entre os homens e as multidões, características da modernidade e expressas nos ambientes das grandes cidades, foram objeto de reflexão, desde o século XIX, por parte de autores como Edgar Alan Poe, Charles Baudelaire e mais recentemente Elias Canetti. A força dos grandes agrupamentos humanos evoca nos indivíduos sentimentos como os de isolamento ou medo, mas também de anonimato, libertação e aventura. Partindo desse ponto metafórico no desenvolvimento de sua temática, as gravuras do artista polonês Paweł Kwiatkowski, expostas no MusA, nos levam a algumas reflexões de caráter universal: o homem, mesmo rodeado por outras pessoas, seja em espaços públicos ou em ambientes privados, é sempre assombrado pela sensação de solidão.


Habitando cenários urbanos como as ruas, os bares ou os interiores de carros, as figuras escolhidas pelo artista para compor os conjuntos de seus trabalhos estão sempre isoladas em seu mundo interior, pouco interagindo com os demais. Mesmo assim, a atmosfera em que estão imersos emana uma carga emocional que toca o espectador.


O diálogo intenso com procedimentos vários que vão desde as técnicas mais tradicionais, como ponta-seca ou serigrafia, passando por outras mais experimentais como a cologravura ou o reprint, evidencia um processo de trabalho em que a obra se constrói a cada passo dado, aceitando o acaso sofrendo modificações a cada ação efetuada. A inclusão de interferências em desenho ou monotipia em alguns trabalhos confere-lhes o caráter de obra única, para além da lógica do múltiplo que impera no mundo gráfico. Ao invés de um projeto fechado, cada obra iniciada é para Kwiatowski uma aventura percorrida de modo prazeroso que incorpora manchas e imperfeições, e cujo resultado final nunca é completamente previsível. Transparências e subversões perspectivas são alguns dos elementos que contribuem para a riqueza de suas superfícies gráficas, as quais convidam para um olhar mais demorado, quase tátil.


Apresentadas em módulos no formato retangular medindo 80 X 120 cm, as quinze gravuras em exposição dialogam com o espaço expositivo de modo singular, pois as paredes que as sustentam parecem uma extensão do suporte, fundindo-se com os brancos das próprias imagens. A multidão que Kwiatkowski questiona em seus trabalhos também está presente na paisagem que se vê das janelas do Museu, a qual tem, como um de seus elementos principais, o apressado fluxo de transeuntes indo e vindo diariamente. Em configurações que jamais se repetem, esses passantes são como células isoladas de um imenso coletivo, cujos sonhos, temores, decepções e desejos são inacessíveis para quem os observa.


Da mesma forma, os personagens que o artista nos apresenta em suas gravuras são desconhecidos, assim como o são seus pensamentos e intenções. Apropriadas intencionalmente de ambientes já publicados como as revistas ou os sítios da internet, essas imagens fotográficas, ao mesmo tempo em que nos passam uma sensação de familiaridade, parecem por outro lado distantes e frias. A monocromia, revelada em inúmeros tons de preto-e-branco, contribui para a atmosfera de silêncio e introspecção que as cenas evocam.


Se na temática Paweł questiona as relações contemporâneas ou mesmo sua falta, paradoxalmente a concretização da exposição Onda é o resultado dos entrelaçamentos possíveis entre os lugares e as pessoas. O ponto de partida foi o encontro entre ele e a artista Dulce Osinski na cidade polonesa de Łódź em 2016, num curso de verão oferecido pela Academia de Belas Artes Władisław Strzemiński, do qual ela participou e em que ele atuou como professor.


Essa experiência resultou num projeto de exposição apresentado ao Conselho Deliberativo do museu em 2017, criando a possibilidade, para Paweł Kwiatkowski, de expor pela primeira vez fora da Europa marcando presença no continente americano, e para o Museu, de ampliar os horizontes e criar conexões para além das fronteiras nacionais.


Tais conexões não se fazem por acaso, tendo em vista as aproximações do trabalho do artista com o que é produzido em Curitiba: enquanto a Polônia é referência mundial no campo da gravura, a capital paranaense também se destaca nessa modalidade artística, congregando artistas gravadores interessados nas diversas técnicas e possuindo uma história que inclui iniciativas como a organização de mostras de gravura, a criação de um museu específico – o Museu da Gravura Cidade de Curitiba – e a disponibilização, na Casa da Gravura, de ateliês públicos que congregam uma comunidade considerável de artistas interessados na área.


O contato com as obras apresentadas na exposição Onda, de Pawel Kwiatkowski, foi para o público paranaense uma experiência única, o que pôde ser percebido durante as muitas mediações realizadas no período em que ela ocorreu pela equipe do Museu. Para o artista, certamente esse também foi um momento marcante em sua carreira, não só pela oportunidade de mostrar sua produção tão longe de casa, mas especialmente pelas possibilidades de interações e trocas que se apresentaram enquanto esteve entre nós.
Afinal, são elas, as trocas, que dão o sentido não só para o fazer da arte, mas também para os esforços em torná-la acessível cada vez a mais pessoas.


Dulce Osinski e Lidiane do Nascimento

Museu de Arte da UFPR - MusA

2ª a 6ª feira, das 9h00 às 12h00 e das 13h00 às 18h00

Sábados, domingos e feriados: Fechado.

Entrada Franca

Rua XV de Novembro, 695 | 1º andar

Centro | Curitiba | Paraná

 

musa@ufpr.br – 41-3310-2603

 

MusA - Museu de Arte da UFPR | - Hospedado pelo CCE - Centro de Computação Eletrônica da UFPR - desenvolvido por unigraf/proec - wmv