DESENHO: A LINHA DIFUSA
A motivação para esta exposição nasce do encontro: o encontro com artistas de diversas regiões do Brasil e também de outros países, os encontros que acontecem ao longo de nossas trajetórias e da necessidade de dar uma certa visualidade ao que eles fizeram e fazem conosco: eles criam laços, afetam nossos trabalhos, fomentam nossa vida criativa, estabelecem pontos de contato, de ajuda mútua, alimentam o nosso entusiasmo.
O encontro é gestação e não podemos viver sem ele. Esta exposição assume esse risco: o de promover o intercâmbio de artistas tão diferentes e distantes, unidos pelo desenho ou pelo pensamento do desenho. Procura não a unidade, mas talvez o choque, o risco, como num processo de montagem onde imagens díspares ou mesmo contrárias, ao serem justapostas, suscitam novas imagens, criam novas significações.
O Desenho é um pensamento que, na prática se bifurca. De um lado ele é processo, do outro é um objeto que resulta deste processo (um engajamento ativo e o tangível resultado deste engajamento). Sua prática nos faz constantemente conscientes do ato físico da sua constituição. Em parte, como afirma Jack Flam, porque seu processo geralmente é mais exposto do que o da pintura, e também porque nós nos identificamos mais facilmente com sua fisicalidade manual, mental e visual do que com outros meios. Daí ser possível dizer que o desenho está “mais à mão”. Isso o torna, aparentemente, uma disciplina dócil, mas não menos exigente. O desenho exige atenção, dedicação e investimento, como ocorre com quem escreve um romance e atravessa páginas no processo de sua elaboração. O desenho é uma arte ciumenta que exige de nós toda a atenção e que não se entrega em encontros fortuitos a preço baixo. Ele exige tudo, não nos enganemos: o desenho nos devolve o que nele buscamos, o que nele depositamos.
Esta exposição, alicerçada por meio do contato pessoal com os artistas em visitas de ateliês, exposições, residências artísticas e no percurso do ensino da arte na universidade, tem como propósito aproximar artistas de diferentes localidades a fim de criar um diálogo que atravessa fronteiras. Nesse diálogo, o desenhose impõe como um lugar difuso, um lugar possível, ponto de parada e de partida. Os artistas Alice Zundt (Londrina-PR), Christine Enrègle (Paris, França), Diego Ribeiro (Vitória-ES) Dulce Osinski (Curitiba-PR), Fernando Augusto (Vitória-ES), Gretchen Sherer (Nova York, EUA), José Antonio de Lima (Curitiba-PR), Hoda Kashiha (Teerã), Liliana Sanches (Vitória-ES), Marcelo Silveira (Recife-PE), aqui se colocam, pautando-se por critérios estéticos e experimentais, buscando o fazer como uma atividade inteiramente desvinculada de distinções técnicas e aceitando, por vezes, uma diferenciação conceitual que de modo algum corresponde a velhas perguntas sobre o que é desenho, o que é pintura, o que é escultura? Como escreve Reynaldo Roels Jr., a resposta já não é mais possível, porque tais perguntas não fazem mais sentido.
Trata-se de um espaço onde os artistas lançam mão de materiais e técnicas menos grandiosos para instituir objetos como sketchbooks, livros de artista, livros alterados, páginas soltas, desenhos espaciais, sites specifics etc. O propósito não é reivindicar um lugar para o desenho, nem contrapô-lo à pintura, mas sim afirmar tanto o processo, quanto o objeto desenho e, assim fazendo, possibilitar as reflexões e o encantamento que com ele experimentamos.
Afirmar o processo é uma estratégia do pernambucano Marcelo Silveira, artista multidisciplinar, que participou de duas bienais de São Paulo com esculturas de madeira e colagem fotográfica. Seu universo de apropriação de imagens fotográficas diversas começou pelo desenho, arte que, no início, ele estendeu à pintura de tecidos para costura de roupas. Agora, retorna à linha gráfica, criando novas tessituras que podem ser vistas dobradas e, quem sabe, como outrora, vestidas.
Do norte para o sul, mas no mesmo plano, está Alice Zundt, artista e professora de arte sediada em Londrina-PR, para quem o trabalho artístico é uma forma de resistir e de atuar no campo educativo. Ela desenvolve um desenho intimista que tem tanto a ver com o detalhe de uma folha, quanto, por exemplo, com as nuvens. Sem participar do circuito de arte, mas ativa em seu recanto, ela cria com infinitos pontos paisagens gráficas de pequenas dimensões que demoram a vir ao mundo e parecem até não quererem ser vistas, mas quando contempladas, estes universos atômicos infinitos falam daquilo que mais aflige o homem contemporâneo: o tempo e o espaço.
Outro artista que costura o tempo e a arte-educação em sua prática artística é o capixaba Diego Ribeiro. Imerso quase que totalmente no trabalho educativo, este artista parece trabalhar a vertente da resistência: é preciso criar para existir, para acreditar, para ter forças para levantar e levar avante a tarefa do ensino em nosso país. Com seu traço gráfico, seja riscado à caneta ou costurado em tecido, ele cria imagens como se mapeasse, de alguma forma, o corpo, a cidade e os desejos humanos; cria imagens como quem administra o tempo, o tempo desenho, o tempo trabalho. Quem sabe no final tudo isso seja desenho vivido?
Mapear o espaço é também a estratégia de Gretchen Scherer, desenhista e pintora nova-iorquina, que constrói verdadeiras cidades inventadas a partir de fotografias de revistas decorativas e arquitetônicas. Mas aqui devemos falar de um mapa invertido, porque seus recortes, suas ruas, casas e interiores não servem para habitar senão uma palavra: a poesia. São imagens desenho/colagem/pintura para serem percorridas pelo olhar, como paisagens labirínticas, caóticas, que nos remetem ao sonho de habitar este mundo.
Fotografias, livros e revistas também alimentam o universo da artista iraniana Hoda Kashiha. Residente em Teerã, ela trava um profundo diálogo entre a cultura árabe e a ocidental, construindo formas extraídas tanto da História da Arte quanto do seu imaginário individual. Desenhista e pintora prolífera, ela cria imagens bem-humoradas e irônicas, a partir de quadros de outros pintores, para falar de uma humanidade que, apesar de trágica, sabe rir e pintar a si mesma. Assim como Gretchen Scherer, seus trabalhos são mostrados no Brasil pela primeira vez nesta exposição.
O livro é também um dos elementos gráficos de Liliana Sanches, desenhista, pintora e serígrafa capixaba, seja como referência, memória ou suporte para suas imagens. Liliana vem se destacando no desenho e na serigrafia brasileira, ampliando a herança serigráfica de outro artista capixaba, Dionísio Del Santo, ao trazer para seu universo artístico a arte pop e a arte aplicada. Interessada em pintura, colagem e literatura, ela cruza essas linguagens para criar universos e imagens estranhas e inesperadas.
A gravura é também uma das disciplinas base da artista curitibana Dulce Osinski. Pintora, desenhista, gravadora, Dulce possui extensa obra pictórica e gráfica, com muitos livros de artista e livros infantis e didáticos publicados por reconhecidas editoras brasileiras. Artista de linhagem expressionista, suas imagens se constroem pela gestualidade, pela materialidade e pela cor. Professora e pensadora da arte, Dulce estende seu fazer artístico no ensino da gravura, tendo trazido para este campo, na Universidade Federal do Paraná, inovações técnicas e teóricas, afirmando a gravura e o desenho como linguagens potentes e capazes de oferecer referências para outras áreas.
José Antonio de Lima, artista curitibano, desenhista, pintor e escultor, há tempos vem criando um universo de obras de grande beleza, em papel artesanal, papel japonês e metal. São esculturas leves, orgânicas, por vezes suspensas, em franco diálogo com a cultura japonesa. O artista estabelece uma intrigante relação entre desenho e escultura, passando de uma modalidade a outra sem estabelecer fronteiras. Neste contexto, o tempo e espaço são seus substantivos mais definidos. De um lado são obras com uma construção lenta, onde a matéria é trabalhada com camadas trazendo para si o tempo; do outro, a linha, que salta do plano bidimensional para o tridimensional, mas continua sendo, de alguma forma, desenho.
O desenho que existe no plano, mas que também pode se instalar como objeto espacial, é o universo da artista francesa Christine Enrégle. PhD pela Universidade Paris I Sorbonne, ela vem desenvolvendo, de longa data, um trabalho que tem como base a natureza: folhas, galhos, troncos e o corpo: carne, pensamento, sangue, que se desdobram infinitamente originando obras intrigantes e de grande impacto visual. Sejam livros de artista em papeis transparentes ou em páginas de tecido, ou desenhos verticais, suas formas emergem pulsantes e sensuais. De um lado, com a leveza que suscita o toque, do outro, com intensidade que leva à explosão. Interessada no intercâmbio artístico e cultural com o Brasil, ela fez, inclusive, parte do seu doutoramento na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
Por último, chegamos à minha participação visual nesta exposição com a obra “A Biblioteca do Artista”, um conjunto de desenhos-livros que venho realizando desde de 2006. Trata-se de uma obra composta de quase uma centena de catálogos de exposições de arte, desenhados ora apenas na folha de rosto e/ou capa, ora em todas as suas páginas. Esta foi a maneira que encontrei para guardar/conviver com catálogos que são produzidos, consultados, esquecidos em nosso universo de trabalho. Ao trazê-los para esta exposição, estou mostrando artistas com quem convivi e exposições que atravessei, dentro de um espírito gráfico por meio desta forma de documentação e difusão artística que influencia e constrói o campo da arte.
Concebida para acontecer em Vitória-ES e em Curitiba-PR, Desenho: a linha difusa é uma exposição pronta para viajar, tanto pelo espírito dos seus artistas, como também pela possibilidade de trânsito dos trabalhos que a compõem. Ao fundo, uma imagem poética nos anima: “navegar é preciso, viver não é preciso”
Fernando Augusto S. Neto,
Vitória-ES, setembro de 2018
Museu de Arte da UFPR - MusA
2ª a 6ª feira, das 9h00 às 12h00 e das 13h00 às 18h00
Sábados, domingos e feriados: Fechado.
Entrada Franca
Rua XV de Novembro, 695 | 1º andar
Centro | Curitiba | Paraná
musa@ufpr.br – 41-3310-2603
MusA - Museu de Arte da UFPR | - Hospedado pelo CCE - Centro de Computação Eletrônica da UFPR - desenvolvido por unigraf/proec - wmv